Por Diego Martínez, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina
A frase proferida pelo atual chefe de Gabinete do Governo e porta-voz do Presidente da Argentina, Manuel Adorni, causou indignação nos locais de trabalho e nos bairros populares do país. Enquanto crescia a indignação após se saber que a companheira do funcionário tinha viajado no avião presidencial e que ambos, juntamente com o resto da comitiva que participou na ‘Argentine Week‘ (‘Semana Argentiniana‘) em Nova Iorque, ficaram hospedados num dos hotéis mais luxuosos da cidade, com quartos cujo custo ronda, em média, os 3.500 dólares, o chefe de gabinete mostrou-se ofendido com as críticas à viagem da sua esposa, alegando que ela “foi trabalhar arduamente” durante seis dias em Nova Iorque. Tudo isto enquanto se cortam drasticamente as despesas do Estado nas áreas da educação e da saúde, particularmente no que diz respeito à deficiência.
Foi o próprio Adorni quem, na sua qualidade de porta-voz presidencial, em agosto de 2024, anunciou um decreto que estabelecia a proibição do uso de aviões do Estado para transportar familiares de funcionários.
Mas a vida luxuosa do chefe de gabinete não fica por aqui. O jornalista Pablo Duggan denunciou que o funcionário tem despesas mensais no cartão de crédito no valor de 17 milhões de pesos, sendo que o seu salário é de 3,5 milhões da mesma moeda e não declara qualquer outro rendimento. A deputada ex-libertária Marcela Pagano apresentou uma denúncia formal sobre este mesmo assunto. Como se isso não bastasse, soube-se também nestes dias que o chefe de gabinete viajou em fevereiro para a estância balnear de luxo de primeira classe de Punta del Este (Conhecida como a “Saint-Tropez do Uruguai“), no Uruguai, num avião privado cujo custo ascende a 12 mil dólares. Luxos que nenhum trabalhador com o rendimento que o funcionário declara ter pode permitir-se.
O funcionário que sim declarou o aumento do seu património pessoal foi Federico Sturzenegger, atual ministro da Desregulamentação e da Transformação do Estado, principal impulsionador dos despedimentos e cortes salariais no Estado, que surpreendentemente passou de um património de 1,402 mil milhões de pesos para um de 2,371 mil milhões em apenas doze meses.
Javier e Karina Milei estão de mãos cheias com o caso do esquema de criptomoedas
Nos últimos dias, foram divulgadas provas importantes do caso ‘$LIBRA‘. Análises forenses ao telemóvel de Mauricio Novelli, empresário que serviu de elo entre o norte-americano Hayden Davis e Milei para concretizar o esquema, revelam que houve inúmeras chamadas nas horas que antecederam e se seguiram ao lançamento da criptomoeda entre Milei, a sua irmã Karina, Davis e Novelli. Tudo isto desmente a versão divulgada pelo próprio Milei de que não sabia ao certo do que se tratava a $LIBRA e que, quando se informou melhor sobre o assunto, decidiu apagar o tweet que tinha publicado quatro horas antes a promover a suposta criptomoeda.
Além disso, os peritos recuperaram do telemóvel de Novelli um documento que mostra um acordo de pagamentos no valor de 5 milhões de dólares, cujo principal beneficiário seria Javier Milei. Foi redigido entre o final de outubro e novembro de 2024, mesmo antes de Davis viajar para a Argentina para se encontrar com Milei na Casa Rosada.
No texto, Novelli escreveu: “Olá, amigos, este é o acordo final discutido com H“, referindo-se, aparentemente, a Hayden Davis. Detalhava a seguir: “1,5 milhões de dólares em tokens líquidos ou dinheiro em troca de Milei anunciar no Twitter que o seu assessor é Hayden Davis/Kelsier/a família Davis. 2 milhões de dólares em tokens ou dinheiro pela assinatura de um contrato pessoalmente com Milei para assessoria em blockchain/inteligência artificial para o governo argentino e/ou Javier Milei, e revisão com Javier e Karina“.
Não se pode tapar o sol com a peneira
É tal o nível de impunidade e de cumplicidade por parte da justiça de que o governo de extrema-direita dispõe, que o procurador federal Eduardo Taiano, responsável pelo processo, tinha acesso às gravações de Novelli já desde novembro de 2025, mas só as incorporou ao processo em fevereiro deste ano. Além disso, de forma insólita, ainda não chamou nem Karina nem Javier Milei para depor no caso. Entretanto, o ministro da Justiça, Juan Bautista Mahiques, questionou a comissão de inquérito do caso $LIBRA pelas suas acusações contra Milei: “Não se pode associá-lo“.
Mas não se pode esconder o sol com a peneira. A corrupção deste governo é cada vez mais evidente. Milei aproveitou-se do justo sentimento de revolta de milhões de trabalhadoras e trabalhadores contra os atos de corrupção de Cristina Fernández, Alberto Fernández e outros dirigentes peronistas para dizer que vinha acabar com a “casta“. Mas fica cada vez mais claro que este governo é tão ou mais corrupto do que os anteriores.
Em suma, somos governados por um grupo de vigaristas, subornados e corruptos que ataca os reformados todas as quartas-feiras, deixa o povo trabalhador à fome e pretende vender a água das geleiras. Por outro lado, o peronismo não serve para o enfrentar e também não tem soluções para os problemas de fundo, nem as teve nos seus governos. A alternativa é continuar a construir uma saída de esquerda com a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U), e a Esquerda Socialista (IS).
No próximo dia 24 de março, temos uma oportunidade de travar o negacionismo e a ‘motosserra‘ de Milei. Por isso, convidamo-lo a fazer parte das grandes marchas unitárias em todo o país, ao lado da Esquerda Socialista, contra o vigarista e fascista Milei. Sejamos centenas de milhares nas ruas!