Por correspondentes da UIT-CI na Alemanha
No final do ano, o governo alemão aprovou a reforma do serviço militar. Oficialmente conhecida como “Lei para a Modernização do Serviço Militar“, ela introduz, entre outras questões, a possibilidade de tornar o serviço militar obrigatório caso não se consiga preencher as vagas com voluntários. Além disso, introduz a obrigação de responder a um questionário que, caso não seja respondido, pode ser punido, em primeira instância, com uma multa de até mil euros e, em caso de reincidência, a multa pode chegar a 25 mil euros. Este questionário, que no caso das mulheres é opcional, abrange todo o tipo de perguntas, como peso, altura, estudos realizados, aptidão para desportos, se se tem outra nacionalidade além da alemã, etc., com o objetivo claro de conhecer em profundidade o ‘material humano‘ com que conta o exército alemão. Contra esta nova lei foram convocadas manifestações estudantis em várias cidades do país.
Em que contexto surge esta nova lei
Antes da aprovação desta lei, o Parlamento Europeu aprovou os orçamentos mais belicistas das últimas décadas. Em março, aprovaram o “ReArm Europe Plan” (‘Plano ReArmar Europa‘, entretanto já mudou de nome para “Readiness 2030“/’Prontidão 2030‘) pelo qual concordaram com um aumento das despesas com a defesa de 800 mil milhões de euros. Na reunião da NATO em junho, aprovou-se passar de 2% do PIB para 2029 para 5% para 2035 para gastos militares. Uma aposta clara em investir o dinheiro público na destrutiva indústria armamentista e na guerra. É a ‘solução‘ que a UE e a NATO procuraram para tentar sair da crise e salvar os grandes grupos económicos.
No caso concreto da Alemanha, além de uma questão orçamental, esta nova lei do serviço militar faz parte de uma reorganização da sua política militar que vem sendo realizada desde os anos 90, quando, pela primeira vez após a Segunda Guerra Mundial, enviou tropas para fora das suas fronteiras, sob o disfarce dos Capacetes Azuis das Nações Unidas, na guerra da ex-Jugoslávia. Anos mais tarde, fê-lo diretamente como exército alemão na guerra do Afeganistão ou atualmente estacionando 400 soldados na Letónia, como fizeram durante a ocupação nazi. Ou seja, esta nova lei do “serviço militar” é claramente mais uma engrenagem para pôr em marcha a grande maquinaria de guerra alemã. Toda esta política, à qual se somam as alterações na legislação de segurança interna, tem o objetivo claro de salvar os grandes monopólios, participar em guerras de expansão ou de defesa dos ‘seus interesses‘ e também, se necessário, na repressão interna. Não devemos esquecer que os planos de austeridade, cortes nas pensões, despedimentos em massa na indústria, etc., caso não sejam aceites pelos trabalhadores, terão de ser impostos à força pela polícia.
Rejeitar esta lei e todo o pacote militar e repressivo
Pelo exposto acima, pensamos que o problema não é ver se há alguma brecha para contornar a lei ou tal ou tal artigo da mesma, mas sim que devemos rejeitar esta lei e todas as demais medidas, como os orçamentos de guerra, os cortes nos direitos democráticos, sociais e laborais. Da mesma forma, devemos encarar esta questão não apenas como um ataque aos jovens, mas a todos os trabalhadores e trabalhadoras. O que precisamos é de uma resposta unificada das organizações sindicais, sociais, políticas e juvenis para enfrentar estes governos, seja na Alemanha ou em qualquer país da UE, que não fazem mais do que aplicar leis que só conseguem tornar os ricos cada vez mais ricos e os trabalhadores cada vez mais pobres.
“Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as tuas de molho…”
Esta lei militar é para a Alemanha, mas a política de cortes, orçamentos para a guerra, reformas laborais, etc., aplica-se em toda a UE. E, tal como na Alemanha, no Estado espanhol, a juventude é um dos setores mais afetados por esta política, tornando cada vez mais difícil o acesso a uma habitação, a um emprego digno ou a um lugar de estudo com futuro profissional e, como se não bastasse, agora querem preparar-nos como carne para canhão para as suas experiências militares.