O que se passa agora nos EUA?

15 de Julho, 2024
3 mins leitura

Pelo Movimento da Liga Revolucionária Marxista (M-LMR), secção da UIT-QI na Itália

Solitário, vítima de bullying e frequentemente vestido com roupa de camuflagem“: foi assim que um ex-colega de escola do autor do atentado o descreveu ao falar com os meios de comunicação locais. Ao mesmo tempo, era eleitor republicano, mas circulam na Internet vídeos em que expressa ódio pelo seu candidato; além disso, parece ter doado no passado a quantia de 15 dólares à ‘Action Blue‘ (plataforma de angariação de fundos para o Partido Democrata). Esta é a descrição do atirador de Trump.

Segundo o FBI: “o atirador agiu sozinho, sem qualquer motivo ideológico“. O atirador de Trump, de 20 anos, não tinha, portanto, qualquer motivação política. “Não identificaram qualquer ideologia (…) Neste momento, as informações de que dispomos indicam que o assassino agiu sozinho“, afirmou Kevin Rojek, do FBI.

O principal responsável por tudo isto é o mal-estar social norte-americano, expressão de um sistema injusto. Thomas Matthew Crooks, este é o seu nome (que, segundo os colegas de escola, não sabia disparar e nem sequer tinha sido admitido no clube de tiro), era um rapaz com indubitáveis problemas psíquicos a quem o sistema social do grande “país livre” deu a “livre” (ou melhor, indecente) possibilidade de obter com extrema facilidade uma espingarda semiautomática.

O que temos de refletir até que, em condições democráticas, isto não se possa repetir é: “por que razão os EUA são um país tão doente, doente de armas, onde só em 2023 ocorreram 21 homicídios em massa, mais de um por semana. 409 mortos em 284 tiroteios. Mais de mil feridos?”  Isto de acordo com o site ‘Mass Shooting Tracker‘, que há anos acompanha o panorama sobre o tema.

Assim, analisando um pouco da história contemporânea, a política “made in USA” está frequentemente impregnada de sangue e atentados; como esquecer J.F. Kennedy, R. Kennedy e o atentado falhado contra Reagan? Certamente Trump é uma figura que pode potencialmente despertar sentimentos adversos, mas não mais do que qualquer outro candidato, do que qualquer político ocidental. O ponto crucial reside precisamente na difusão e na facilidade de acesso às armas de fogo. Os EUA detêm o recorde negativo absoluto da maior posse de armas: 120,5 unidades por cada 100 pessoas. O dado é simplesmente  devastador.

Além disso, o sistema de saúde, fortemente elitista e com escassa acessibilidade para as pessoas mais desfavorecidas, torna esta praga das armas simplesmente incontrolável (com lucro apenas para os lobbies pró-armas); a situação da saúde não permite um rastreio sério e o tratamento adequado para quem sofre de doenças mentais. Não é por acaso que um grande número dos autores de massacres e tiroteios nos Estados Unidos sofria e sofrerá de distúrbios psíquicos. Se a tudo isto acrescentarmos as chamadas “tesouras sociais“, ou seja, o fosso crónico entre ricos, abastados e pobres, o destino está traçado.

Quais serão as consequências deste acontecimento? Em primeiro lugar, num período de paz, o uso da violência gratuita é condenável, mas não podemos deixar de pensar que o que aconteceu ontem a Donald Trump é simplesmente um episódio isolado; na realidade, é fruto de um efeito dominó que teve início em 2016 e que continua a marcar um estado de tensão permanente. Quem pode esquecer o Black Lives Matter ou os acontecimentos reacionários no Capitol Hill, com a tentativa de tomar o Capitólio no 6 de janeiro?

O verdadeiro drama é que os Estados Unidos estão permeados por um sentimento de “justiça violenta“. Uma sondagem realizada pelo politólogo Robert Pape, da Universidade de Chicago, revelou que um número significativo de eleitores, tanto de Biden como de Trump, estaria disposto a recorrer à violência para impedir a eleição do adversário.

É certo que a imagem de Trump com o punho levantado, gritando “Fight! Fight!“, contrasta fortemente com a fraqueza senil absoluta de Biden; o verdadeiro efeito deste gesto é a eleição de Trump, que se tornou, a esta altura, quase irreversível. Uma eleição que não alterará muito o estado das coisas no panorama político e social dos Estados Unidos, mas que terá certamente repercussões no âmbito internacional, a começar precisamente pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

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