Vento de greves na Europa

30 de Outubro, 2025
3 mins leitura

Por Baran Mihaliç, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Na Espanha, na quarta-feira, 15 de outubro, a vida parou devido à greve geral e aos protestos organizados em solidariedade com a Palestina, que contaram com a participação de centenas de milhares de pessoas. A greve, convocada por organizações socialistas, anarquistas e por confederações sindicais, teve grande repercussão em todo o país. Trabalhadores e estudantes que encheram as ruas em dezenas de cidades deram um exemplo histórico de solidariedade, exigindo sanções eficazes, e não apenas simbólicas, contra Israel.

É importante questionar por que razão a classe trabalhadora espanhola levantou estas reivindicações contra o governo do Partido Socialista Operário Espanhol (‘PSOE‘), liderado por Pedro Sánchez, que é um dos governos que mais critica Israel. Os sindicatos que organizaram a greve salientam que as medidas tomadas pelo governo não foram além do simbolismo. A declaração de um embargo de armas contra Israel por parte do governo só se concretizou no segundo ano do genocídio, na sequência das greves e protestos dos trabalhadores portuários. Além disso, este embargo não afeta significativamente a cooperação militar da Espanha com Israel; os acordos existentes continuam em vigor e não são tomadas quaisquer medidas para inspecionar os navios israelitas.

Perante este panorama, os trabalhadores espanhóis continuam a apelar ao corte de todas as relações diplomáticas, militares e comerciais com Israel e ao fim da loucura do armamento na Europa.

Greve contra o prolongamento do horário de trabalho na Grécia

Outro acontecimento que marcou a agenda laboral europeia em outubro ocorreu na Grécia. Foi apresentado ao parlamento um projeto de lei que permite prolongar a jornada de trabalho diária no setor privado até 13 horas. Os sindicatos mobilizaram-se contra este projeto de lei, defendido pelo governo com o argumento de “tornar o mercado de trabalho mais flexível e eficiente“, mas que ignora as conquistas históricas da classe trabalhadora. Com duas greves gerais realizadas no espaço de 15 dias, os trabalhadores dos setores público e privado paralisaram os transportes, as atividades económicas e as instituições públicas em todo o país, principalmente em Atenas e Salónica, as duas maiores cidades do pais.

A classe trabalhadora grega tem vindo a ser sujeita, há muito tempo, a políticas de austeridade impostas sob o pretexto de sair da crise económica. Apesar de se alegar que a economia está a recuperar, a conta é paga pelo povo; o poder de compra está a diminuir, os salários estão a baixar. Os trabalhadores organizados que resistem a este quadro mobilizaram-se novamente com a apresentação do projeto de lei que caracterizam como “lei da escravatura“. No entanto, o governo de Mitsotakis, mantendo-se firme na sua política antilaboral, aprovou a lei. Os sindicatos, por sua vez, anunciaram que, com o início da aplicação da lei, irão intensificar a pressão social e utilizar todos os meios de luta.

Cortes nas despesas públicas na Bélgica

Na Bélgica, realizou-se uma greve geral a 14 de outubro contra os cortes nas despesas públicas. Os sindicatos uniram-se contra as políticas antitrabalhistas do governo, que incluem planos para aumentar a idade da reforma, cortes nas despesas públicas e medidas de flexibilização do trabalho. Os trabalhadores do setor retalhista aderiram à greve; os consumidores foram também chamados à solidariedade. Mais de 140 mil pessoas participaram nas manifestações organizadas, tendo o transporte rodoviário e aéreo sido interrompido. Perante a recusa do governo em recuar face a tudo isto, os sindicatos anunciaram um novo calendário de ações de três dias para o mês de novembro.

A Espanha, a Grécia e a Bélgica não são casos isolados. Em toda a Europa, as políticas de trabalho flexível, o aumento da idade da reforma e a queda do poder de compra continuam a ser promovidas pelos governos sob o pretexto do “crescimento económico” ou da “ameaça de guerra“. No entanto, os trabalhadores europeus não hesitam em tomar medidas organizadas para defender os seus direitos conquistados. Tendo em conta a atual situação económica e política da Europa, é evidente que a luta pelos direitos laborais se intensificará no próximo período. No entanto, seria ingénuo não perceber que o sistema “liberal-democrático” da UE não prevê isso e que, para enfraquecer o poder organizado da classe trabalhadora, apostará em políticas repressivas e dançará com a extrema-direita na arena política.

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