Contas “pesadas” e o impasse do imperialismo

10 de Fevereiro, 2026
3 mins leitura

Por Bahadır Bedri, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

O segundo quarto do século XXI começou efetivamente. Este novo capítulo abre-se para um período em que a crise estrutural do imperialismo se aprofunda, a hegemonia é abalada e as tensões de partilha ganham força. Com a agressividade dos EUA personificada por Trump, a Doutrina Monroe foi retirada das prateleiras empoeiradas e colocada sobre a mesa. Os EUA declararam que consideram toda a América como seu “quintal”, que não tolerarão a presença comercial e política da China na região e que os recursos subterrâneos e superficiais do continente devem ser abertos incondicionalmente às ‘holdings‘ americanas. A Gronelândia também faz parte desse continente.

Olhando para o mapa político da América do Sul, vemos que na Argentina, no Peru e no Chile, os governos ‘trumpistas‘ ocupam algumas posições políticas como agentes locais do imperialismo. Sob este cerco, os olhos voltam-se inevitavelmente para a Venezuela, que possui as maiores reservas de petróleo do mundo. O sequestro de Maduro a 3 de janeiro, sob o pretexto de narcoterrorismo, não era o objetivo principal dos EUA. Era apenas o começo para domar a Venezuela.

Com a revolução do gás de xisto (‘fraturamento hidráulico‘, também conhecido como ‘fracking‘), os EUA enriqueceram em petróleo leve e passaram a ser exportadores. Mas isso é apenas um lado da moeda. A infraestrutura tecnológica das refinarias existentes nos EUA foi criada há décadas para processar ‘petróleo pesado‘. Por isso, eles ainda precisam do petróleo pesado da Venezuela para exportar o petróleo leve e caro que extraem e manter as suas refinarias a funcionar. Isso não é apenas uma escolha comercial, mas uma necessidade técnica para a indústria dos EUA. Outro objetivo é que a China, maior importadora mundial de petróleo e maior parceira comercial dos países da América do Sul, continua dependente dos EUA em relação ao petróleo ou que os EUA possam controlar esse comércio em escala global. Não nos esqueçamos que a China está a reduzir gradualmente as importações de petróleo dos EUA. O petróleo da Venezuela, nesse sentido, pode ser visto como uma carta na manga dos EUA contra a China em termos de energia.

É precisamente neste ponto que o ritmo da ‘dança‘ entre o atual regime venezuelano e o imperialismo está a mudar. O objetivo principal é garantir “segurança jurídica” aos monopólios petrolíferos, principalmente à Chevron, assegurar a transferência dos lucros dos campos anteriormente nacionalizados e redesenhar o sistema jurídico do país de acordo com as necessidades do capital internacional. Essas novas tentativas de acordo, escondidas atrás do discurso “anti-imperialista”, priorizam a sobrevivência das empresas petrolíferas e da burocracia local, e não do povo venezuelano. O imperialismo pretende atrair o regime bolivariano para a sua órbita por meio de “acordos de rendição”.

No entanto, a grande contradição do imperialismo norte-americano é que, enquanto se torna agressivo no exterior, vive uma divisão social no interior. Os protestos contra a polícia de imigração (ICE); as mobilizações contra as forças policiais com dinâmicas paramilitares e as fissuras que se tornam evidentes entre os estados e o governo federal ameaçam a estabilidade interna dos EUA. Enquanto tenta controlar toda a América, estamos perante uma hegemonia extremamente frágil, que tem dificuldade em apagar o incêndio na sua própria casa.

Outra contradição importante é a natureza imprevisível da luta de classes. Mesmo que os governos de todo o continente se submetam a Trump e as burguesias locais apertem a mão dos EUA, a classe trabalhadora e os povos pobres da América Latina mantêm o potencial de atrapalhar essa engrenagem de exploração. Não há nenhuma instância que controle ou interrompa a luta de classes. Uma resistência que se desenvolva à escala continental pode vir a perturbar todos os planos do imperialismo.

Não é possível permanecer “independente” enquanto se faz parte do sistema capitalista imperialista e se está ligado ao mecanismo de mercado, tendo apenas atritos parciais e conjunturais com os EUA. Sem uma ruptura real, profunda e revolucionária com o capitalismo, os ataques do imperialismo não podem ser neutralizados; apenas adiados ou transformados em matéria de negociação. Estamos perante uma série de mudanças que colocarão em primeiro plano as questões urgentes da construção internacional na América do Sul e serão palco de uma acirrada luta de classes. A solução está numa resistência de classe unificada à escala continental, que tenha como objetivo romper com o capitalismo.

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