2026 começa num mundo cada vez mais instável e perigoso. As guerras multiplicam-se, as tensões entre potências escalam e os governos recorrem cada vez mais à força militar para defender interesses económicos e geoestratégicos. Não se trata de exceções nem de desvios momentâneos: é o funcionamento normal de um sistema em crise profunda, que já não consegue garantir crescimento, estabilidade ou bem-estar sem recorrer à violência.
A invasão dos Estados Unidos à Venezuela, com o objetivo declarado de controlar petróleo e recursos estratégicos como as terras raras, é um dos exemplos mais claros desta escalada. Nos dias seguintes, novas ameaças de Trump apontaram para a Colômbia e até para a Gronelândia. Ao mesmo tempo, a guerra na Ucrânia continua a ser usada como justificação para o rearmamento europeu, para o aumento dos orçamentos militares e para preparar as sociedades para conflitos prolongados. Em Portugal, começa já a discutir-se se o país deve preparar-se para enviar jovens para a guerra.
Nada disto está desligado da vida concreta de quem trabalha. Enquanto se multiplicam compromissos militares e gastos com armamento, faltam recursos para a saúde, a educação, a habitação e os serviços públicos. A guerra e a militarização não são apenas fenómenos externos, são escolhas políticas que têm consequências diretas nos salários, nos direitos e nas condições de vida, e que se traduzem em mais verbas para a Defesa e maior subordinação aos interesses da NATO, ao mesmo tempo que se aprofunda o subfinanciamento crónico dos serviços públicos. Quando o governo fala em “responsabilidade”, fala de disciplina orçamental ao serviço da guerra e dos mercados.
Em Portugal, estas dinâmicas internacionais combinam-se com uma economia frágil e dependente. Apesar dos discursos sobre crescimento e estabilidade, o essencial mantém-se: os preços continuam altos, a habitação inacessível e os salários insuficientes para garantir uma vida digna. O aumento do Salário Mínimo Nacional para 920 euros em 2026 não altera este quadro estrutural, nem trava a degradação das condições de vida da maioria.
No plano político, o governo mantém-se em funções, mas fragilizado. Luís Montenegro procura de todas as formas garantir continuidade e estabilidade, como ficou claro na utilização da mensagem de Natal para pedir a eleição de Marques Mendes à Presidência da República, de maneira a assegurar um Presidente alinhado com o governo e com as prioridades da AD.
Os partidos do regime, à direita e à esquerda, continuam presos à mesma lógica: gerir a crise sem tocar nos interesses dos grandes capitalistas. Esta incapacidade de resposta alimenta frustrações sociais profundas e cria espaço para o crescimento da extrema-direita, que se apresenta como alternativa enquanto reforça políticas reacionárias e divide quem trabalha.
Ainda assim, 2025 mostrou que a passividade não é inevitável. A Greve Geral de dezembro foi um momento importante, não porque tenha resolvido os problemas, mas porque rompeu o isolamento das lutas e mostrou que existe força social quando os conflitos deixam de estar dispersos. Não foi um ponto de chegada, mas um sinal claro de que o descontentamento pode transformar-se em ação coletiva.
O problema não é a falta de luta. O que ficou à vista foi outra coisa: greves e protestos existiram ao longo de todo o ano, mas foram mantidos separados, controlados e, muitas vezes, esvaziados pelas direções sindicais, mais preocupadas em gerir calendários do que em enfrentar a ofensiva do governo e das patronais. Resta saber como reagirão as bases e os setores intermédios das estruturas sindicais perante os novos ataques que se anunciam.
É neste quadro que 2026 começa com as eleições presidenciais. Como sempre, tentarão apresentá-las como um momento de “união nacional”, acima dos conflitos sociais. Mas a Presidência da República faz parte do regime que valida orçamentos de guerra, privatizações encapotadas e ataques aos direitos democráticos. Para quem vive do trabalho, o essencial não é escolher um Presidente “mais responsável”, mas usar este momento para disputar ideias e expor as escolhas que estão em causa.
As presidenciais não suspendem a luta social nem oferecem uma saída para a crise. Pelo contrário, decorrem num momento em que o regime procura recompor legitimidade e canalizar o descontentamento para dentro de limites seguros. O risco não é apenas a ilusão num “árbitro” institucional, mas que a campanha funcione como anestesia política, adiando lutas e deslocando expectativas para Belém. Encarar este processo de forma crítica implica recusá-lo como solução e utilizá-lo como terreno de disputa, denúncia e afirmação de uma alternativa que não cabe nas instituições existentes.
O combate ao pacote laboral será um dos eixos centrais no arranque de 2026. Derrotá-lo não é apenas uma questão de defender direitos existentes: é uma condição para travar a ofensiva patronal e abrir espaço para uma resposta mais ampla. Hoje, a queda do governo não está colocada. Mas cada ataque derrotado, cada luta unificada e cada recuo imposto abre caminho para questionar quem governa e para quem governa.
O que está em causa em 2026 não é apenas resistir a mais um ataque, mas romper com a lógica de defensiva permanente. A Greve Geral mostrou que, quando a luta ganha escala e unidade, o governo e os patrões são obrigados a reagir. O desafio agora é não deixar que essa experiência se dissipe: transformar o que foi exceção em método, o que foi resposta em estratégia e o que foi protesto em força organizada capaz de impor avanços e abrir novas possibilidades.
Num mundo em guerra e num país cada vez mais desigual, a alternativa não nasce espontaneamente. Ou o descontentamento é canalizado para soluções reacionárias e autoritárias, ou se transforma em força organizada de quem trabalha. É essa disputa que atravessará 2026.
Transformar indignação em ação coletiva, ligar lutas dispersas, enfrentar o pacote laboral e construir uma resposta independente dos governos e dos aparelhos que travam a mobilização, é aí, nesse terreno concreto e difícil, que se decidirá o próximo período. É com esse horizonte que entramos em 2026.